Organização de Jovens Espíritas

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O teatro com temas espíritas vem crescendo bastante no Brasil. Alguns grupos, como o S.O.L. Espírita, vem procurando fazer um trabalho diferenciado, e já começam a obter bons resultados.

Procurando fazer mais do que simples adaptações de romances espíritas para os palcos, o grupo teatral S.O.L. Espírita tenta crescer e melhorar suas produções. Além das dificuldades culturais e econômicas do país, o grupo também tem enfrentado resistência ideológica dos próprios espíritas.

A sigla “S.O.L.” significa ‘Sob o Olhar da Luz’. O grupo tem a coordenação de Marco Antonio Guerrero, que conversou conosco sobre seus planos e algumas questões básicas do espiritismo hoje. Em alguns momentos, sua postura pode até não agradar à maioria dos espíritas, mas, sem dúvida, os temas apresentados merecem ser discutidos de forma mais profunda e freqüente.

O próximo projeto do grupo diz respeito a um evento cultural no teatro Paiol que, segundo Guerrero, já tem um reconhecimento como teatro espírita. Ainda estão sem patrocínio financeiro, mas contam com a divulgação da Rádio Boa Nova, da Rádio Mundial, da Revista Cristã de Espiritismo, do provedor espírita Kardecnet, da USE/SP e, agora, da revista Espiritismo & Ciência. Eles não pretendem apenas colocar as duas peças em cartaz, mas criar um evento cultural espírita, abrindo espaço para outras pessoas ou grupos apresentarem seu trabalho, escritores espíritas autografando, conversando com as pessoas.

Que motivo os levou a se reunir num grupo teatral com temática espírita? Como o trabalho começou?

O grupo teatral Sol Espírita está voltado à temática espírita porque nós acreditamos nessa doutrina espírita. A filosofia é muito rica e interessante de ser passada ao público. O teatro coloca esse temática de uma maneira muito forte, impactante, e nós adoramos fazer teatro. Há alguns anos eu assisti a uma peça espírita de um grupo de Catanduva que estava em São Paulo, e achei muito interessante. Eu fui tocado porque, num momento da peça, eles desciam do palco e iam tocando algumas pessoas, sem falar coisa alguma, mas dizendo alguma coisa interiormente. O diretor da companhia, que também atuava, veio em minha direção e, quando ele me tocou, pareceu que foi um chamado.

Depois, eles fizeram um evento em Catanduva, chamado ENTESP (‘Encontro de Teatro Espírita’), e eu observei vários grupos com propostas e mecanismos diferentes. Até então, eu só tinha feito duas peças na escola, e não tinha a menor idéia de fazer teatro, embora gostasse. Conversei com algumas pessoas do centro espírita que eu freqüentava, e elas toparam fazer um grupo. Eu não conhecia nada de teatro, de convivência, de palco, nada. Mas tivemos muita ajuda do plano espiritual – muita ajuda mesmo.

No começo as nossas peças eram fracas de dramaturgia, mas fomos aprendendo, conhecendo gente de teatro, gente que faz teatro e é espírita, gente que tem grupo de teatro espírita, como o professor de teatro da USP, que nos deu muitas dicas. Fomos seguindo, até chegar com Ah, Godói!, que é a peça que completou três anos em abril, participou de festivais e ganhou alguns prêmios. Em setembro do ano passado estreamos uma peça espírita infantil que também já ganhou prêmios. Fomos chamados pra representar no Memorial da América Latina, em outubro de 2001, e fechamos contrato com o shopping Penha.

Qual o principal tipo de peça que vocês encenam? Como vocês buscam os textos e histórias?

Nós temos uma preocupação que é fazer teatro de boa qualidade. Isso nós temos tentado e não é fácil, porque é o sonho de todo mundo que faz teatro: um bom texto, um bom diretor, um bom elenco, uma boa cenografia. O que existe de temática espírita nos teatro de São Paulo, geralmente o que é?... Pegam um romance espírita na prateleira, e jogam no palco sem a mínima preocupação de adaptá-lo pra dimensão teatral. Então, às vezes, o público espírita é nosso grande inimigo, porque ele é pouco crítico, não questiona as coisas, aceitando da maneira que as coisas vêm. Às vezes, você apresenta no palco de uma forma horrível, e o público chora, aplaude. Eu tenho apresentações nossas daqueles dias em que nada dá certo, é terrível, e ainda assim o público gosta. Não é assim.

O seu espírito crítico não agüenta?

Não agüenta. Nós temos assistido a todas as peças espíritas pra ver o que acontece no meio, o que estão fazendo, sem tem alguma técnica nova... É horrível! As peças são horríveis. Então, o público não é crítico, não exige;por isso, o pessoal tem feito qualquer coisa, porque, em termos financeiros, peças com temáticas espíritas são um bom negócio. O espiritismo tem um outro grande problema. Por ser uma filosofia, ele é prolixo em termos técnicos, nas palestras; mas no teatro isso é um crime. No teatro, o discurso ocorre em forma de ação. Então nós optamos, desde a primeira peça, em não adaptar um romance, mas escrever nossas peças. Hoje, temos conseguido coisas muito significativas e interessantes em texto. Eu escrevo e minha esposa Rosana, que também coordena o grupo, também está escrevendo. Foi ela que escreveu Os Amigos Invisíveis de Mandioquinha, a peça infantil. Esses textos também estão sendo escritos com o amparo da espiritualidade, mas, claro, eles não estão “fazendo por nós”; temos de estar preparados, saber o que é dramaturgia, saber escrever. Um autor nosso amigo, que tem escrito alguns livros, diz que é um trabalho de parceria com a espiritualidade, em conjunto com a espiritualidade. Eles vão nos orientando e inspirando, mas nós precisamos do conhecimento técnico.

Quais as mensagens que vocês têm procurado passar ao público?

Coisas atuais, num trabalho de conscientização das pessoas. Tem a ver com a espiritualidade do dia-a-dia, o que a pessoa faz quando tem problemas como alcoolismo, drogas, etc. Com o romance, você faz um e coloca no palco, é muito legal; faz um segundo romance espírita, e é interessante; o terceiro já não tem novidade. Os romances navegam no mesmo sentido, mudando o nome das pessoas e os locais, mas é sempre o cara que na outra encarnação aprontou com X, Y e Z, e vem pra essa vida se retratar com X, Y e Z. Então, resolvemos falar dos dias atuais, da vivência do dia de hoje.

Pra se ter uma idéia, a peça Ah, Godói! conta a história de um apresentador de televisão nos moldes do que a gente tem de pior hoje em dia. Ele vai parar num lugar onde existem seres estranhos que jogam com ele. Dá a impressão ao público de que ele está entrando no Umbral, porque eles atormentam o Godói, com meias palavras, meias verdades. Mostra cenas de sua vida, os bastidores do programa, as falcatruas dos políticos e empresários. Na verdade, ele não morreu, mas está em coma, e ele está lá pra se tocar de que deve voltar de uma maneira melhor, mais saudável. Isso rapidamente, porque a peça tem muito mais coisas.

As peças são estritamente espíritas? Qualquer um que assistir vai curtir?

Esse é outro grande desafio nosso: fazer uma peça que tenha todo esse conteúdo espiritualista, espírita, mas construída de uma maneira cênica teatral, de modo que qualquer pessoa possa assistir. E isso não é fácil; tem de diluir a mensagem espírita de maneira que fique claro pra todos sem ficar muito rala, sem perder sua força e essência.

Vocês vivem de teatro ou têm outras atividades?

Não. Por enquanto, isso está sendo a nossa vantagem e, por outro lado, a nossa desvantagem. Eu sou designer, faço criação, então o logotipo do Ah, Godói! fui eu que criei; minha esposa, que dirigiu o Mandioquinha, é oficial de justiça. Cada um no grupo tem um outro trabalho. Embora, hoje, com o Mandioquinha, nós estejamos sendo chamados pra representar a peça. Agora, estamos indo nos apresentar em escolas, e pretendo levantar recursos pra manter as produções, para manter esse espaço e crescer.

Pra ganhar uma nova dimensão?

Exatamente. Coisa que a gente não esperava, não tínhamos essa pretensão porque, no meio do ano passado, o Godói! deu uma parada. Nós éramos em doze pessoas e saíram umas quatro ou cinco, porque não podemos esquecer que esse é um trabalho espírita e, como tal, ele sofre uma influência muito grande, uma carga violenta, e nem todos agüentam – apesar de termos um trabalho de sustentação em todos os níveis: em nossas reuniões dos domingos temos uma vibração inicial de pelo menos meia hora, temos um professor de tai chi que vem dar aulas, temos laboratórios teatrais, aulas de neurolingüística, de astrologia, vivência e dinâmica de grupo, aulas sobre Jesus e espiritismo. Você não é atacado mediunicamente apenas dentro do centro espírita;você é atacado no seu serviço, na rua, na escola, no namoro, no bate-papo com um amigo. É preciso aprender a ter controle sobre isso, mas infelizmente nem todos conseguem.

Como você vê a difusão da doutrina hoje? Percebe-se um certo dogmatismo e uma segmentação, a ponto de algumas pessoas chamarem de “religião espírita”. Quem tenta sair um pouco fora disso é estigmatizado...

Eu sou um pouco temeroso com relação a essa difusão do espiritismo. Vejo muito radicalismo, principalmente por parte das organizações que teriam a função de estar organizando melhor. As federações, as associações, não estão conseguindo cumprir seu papel. Tem esse dogmatismo muito grande. Às vezes, eu vejo o espiritismo cair no mesmo problema que ele condena no catolicismo: de fechar, dogmatizar. Um amigo nosso diz que o espiritismo há de vencer, apesar dos espíritas. Nós temos sofrido muito nesse meio, porque não temos o apoio dos espíritas; eles são os que menos dão suporte.

Parece que ser espírita é um estigma, as pessoas têm medo de dizer. O espírita tem um medo tremendo de lidar com o dinheiro. Não que o dinheiro faça mal; ele tem medo porque quer “bancar o puritano”, não quer “misturar uma coisa com a outra”. Todos os eventos, todos os acontecimentos, toda a organização espírita carece de profissionalismo.

Eu brinco com o pessoal sobre o evento espírita. Ele é assim: dois caras se reúnem e resolvem fazer uma “noite da pizza”, num lugar pra milhares de pessoas e um show ao vivo. Passa-se um mês, e eles não tiveram tempo, mas o primo de um deles foi ver um salão grande pra fazer o evento, só que estava muito caro, eles não têm grana, e resolvem fazer na garagem de um deles, que é grande, porém descoberta. Põem uma lona por cima, e o músico é o primo. No dia, eles passam no Extra ou no Carrefour, compram meia dúzia de disquinhos de pizza, queijo, e o primo que ia tocar não pôde porque viajou, então eles pegam o som três-em-um. O toca-fitas não funciona, mas eles arranjam um disco. Então começa a chover, e a lona está furada...

Evento espírita é isso, porque eles acham que o dinheiro é uma coisa ruim. Todos os eventos espíritas são tristes, de chorar, porque eles não têm uma visão empresarial, administrativa, política. Eu acho que o movimento espírita vai ter de passar por um processo muito forte, que mexa com as bases, com as estruturas, pra tomar um outro caminho. Todas as pesquisas que falam de religião mostram os evangélicos crescendo, os católicos oscilando, e os espíritas sempre na base de 6 a 7%. Isso porque entra muita gente, porque a doutrina é muito boa, forte e rica; mas, em compensação, sai muita gente, porque é muito chato...

...E o Brasil é um dos poucos países em que o espiritismo continua com certa força, porque na França e nos EUA ele praticamente acabou.

Exatamente. É uma falsa moralidade. O jovem entra no centro espírita e faz de tudo pra se encaixar, mas chega uma hora em que ele não agüenta mais. A juventude é muito mal estruturada, não se tem uma linguagem própria para o jovem. Coloca-se o coitado pra entregar a fichinha para o sujeito tomar passe, para encher o copinho com água. Esse jovem está repleto de energia, então, por que não direcioná-lo ao trabalho, a uma atividade, liberta. Lógico que tem de ficar de olho, direcionar, usar a energia de forma consciente. Mas não: é um marasmo, uma falta de didática, é terrível!

O pior é que a maioria dos espíritas só estuda Kardec, e ainda estudam mal, porque Kardec era contra tudo isso. Ele deixou isso bem claro: não é para ter grandes instituições, que acabam criando um problema de vaidade, de status.

E como você vê os estudos científicos que estão sendo feitos atualmente por diversos grupos, inclusive em algumas universidades?

Eu acompanhei algumas coisas do TCE (‘Transcomunicação Espírita’), e alguns estudos que são feitos por médiuns. Acho que são muito ricos e importantes, mas muito aquém do que seria necessário. Um problema é esse: o espiritismo é filosofia, ciência e religião, mas essa parte científica dele é zero. Experimentos científicos dentro do espiritismo são raríssimos. Eles ocorrem fora do espiritismo, por pessoas que nem são espíritas, que observam o que está acontecendo e acham muito interessante, e vão fazer os seus experimentos.

O que o pessoal está fazendo é muito bom, mas é muito pouco. Existe um grupo de voluntários que realmente está fazendo um trabalho muito interessante, mas eles estão sozinhos, e os próprios espíritas não dão valor a isso.

Alex Alprim

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