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Assim como a Arte cristã sucedeu a Arte pagã, transformando-a, a Arte espírita será o complementoe a transformação da Arte cristã.

Allan Kardec


A frase acima tem sido utilizada por artistas espíritas e entusiastas de sua arte como verdadeira bandeira das novas idéias que bafejarão a renovação moral da arte. É de fato uma bela imagem que apreende, em poucas linhas, séculos de história da produção humana.
Dada a relevância da afirmação kardequiana, é justo que sobre ela nos debrucemos, problematizando-lhe o sentido e buscando entender qual será o lugar da Arte Espírita no contexto das manifestações artísticas em geral. Para tanto, traçarei um pequeno panorama histórico, evidentemente resumido por questões do espaço que seria necessário para um roteiro mais completo.
Detenhamo-nos, de início, no que o Codificador chama de Arte pagã. O termo "paganismo" tem sido tomado como designativo de tudo aquilo que não se refere ao cristianismo, sendo seu significado mais completo aquele que dá conta de sua ligação às doutrinas politeístas. Quando Kardec utiliza o termo em se tratando de arte está retratando bem a mentalidade de sua época (que também é a de nossa própria) que divide a história humana em duas fases, sendo o nascimento do Cristo seu marco.
Que não se pense, no entanto, que a expressão pagã é empregada por Kardec de modo pejorativo. Nem se pode dizer, em se tratando de arte, que a de um tipo ou povo é superior ou inferior em comparação com outras manifestações estéticas que se sucedem no espaço e no tempo.
. .Sabe-se que as primeiras manifestações artísticas remontam à pré-história e que as chamadas pinturas rupestres, qualquer que fosse sua função cujo conhecimento se perdeu na esteira do tempo, não eram todas iguais, já apresentando diferenças que se poderiam chamar, por comparação, de estilos individuais. Posteriormente, em diversas civilizações, as manifestações artísticas ligavam-se ora à religiosidade, ora a questões puramente estéticas.
. .Portanto, o vocábulo "pagã" é utilizado por Kardec, e por outros intelectuais de sua época, apenas com a finalidade de estabelecer uma linha temporal.
. .Com o advento do cristianismo e posteriormente sua disseminação pelo mundo mediante diversos movimentos socio-politico-religiosos, a chamada arte cristã passa então a ser a representante direta do poder da igreja. Esta arte dividia espaço com a arte profana (pro = fora; fanum = templo; literalmente de fora do templo) e com ela se comunicava, retirando da tradição artística os elementos que lhe eram necessários para constituir-se enquanto ARTE e fugir do puro e simples proselitismo.
. .Os diversos estilos ou tendências estéticas que se sucedem no tempo, nada mais são que mostras do pensamento humano em determinada época. Cada estilo buscará na estética anterior os elementos mediante os quais se constituirá como arte, seja através de sua manutenção, seja por sua negação (o que é mais freqüente).
. .Tomando a frase de Kardec em seu aspecto mais simples, pode-se dizer que a arte espírita será filha natural da Arte Cristã, que por sua vez é filha da Arte Pagã, uma configuração resumida do conceito de tradição.

. .Mas o que exatamente é a tradição? Cito como tentativa de resposta a definição de Octavio Paz:
. .Entende-se por tradição a transmissão, de uma geração a outra, de notícias, lendas, histórias, crenças, costumes, formas literárias e artísticas, idéias e estilos; [...] (1984:17)
. .A Arte Espírita será portanto a herdeira de toda a riqueza de séculos de arte, não havendo possibilidade de ela se constituir sozinha, i. e., sem o diálogo com a tradição cultural humana de séculos e séculos.
. .Apresentam-se aqui questionamentos relevantes: O artista espírita precisa conhecer arte para fazer arte? A Arte Espírita necessita dialogar com a tradição e a contemporaneidade? Busquemos caminhos para as respostas.
O poeta e ensaísta americano T. S. Eliot assinala que a tradição é obtida pelo artista como resultado de um grande trabalho de aquisição, o que equivale a dizer que para fazer arte é preciso conhecer arte. Neste processo de enriquecimento cultural está envolvido o que Eliot chama de sentido histórico o qual compreende uma percepção não só do passado mas da sua presença; o sentido histórico compele o homem a escrever não apenas com sua própria geração no sangue, mas também com um sentimento de que toda a literatura desde Homero [...] possui uma existência simultânea e compõe uma ordem simultânea. (1997: 22-3)
Concebemos, portanto, que a Arte Espírita não poderá ser arte por excelência se menosprezar o processo histórico do qual é resultante. Aquele que se propõe a se expressar com conteúdo espírita aliado à qualidade estética deve investir em seu processo de aquisição cultural. Ainda segundo Eliot: Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer arte, detém, sozinho, o seu completo significado. O seu significado, a sua avaliação, é a avaliação da sua relação com os poetas e artistas mortos. [...] Os monumentos existentes formam uma ordem ideal, a qual é modificada pela introdução da nova, da verdadeiramente nova, obra de arte. (1997:23)
E quanto ao lugar da Arte Espírita no contexto da tradição? Simples, o mesmo lugar que ocupa a Arte Cristã. A Arte Espírita será mais uma dessas rupturas presentes em toda a tradição da cultura humana. E é justamente por ser ruptura que se ligará à tradição, se levarmos em conta a afirmativa de Octavio Paz que, em Os filhos do barro, assevera a existência de uma tradição da ruptura que implicaria numa dupla negação: da tradição e a da própria ruptura. Em termos mais simples pode-se afirmar que a Arte Espírita necessita ter o seu tanto de tradição e o seu tanto de ruptura para que realmente seja ARTE.
Retomando a frase de Kardec, a Arte Espírita complementará a tradição pois, assim como todas as expressões da sensibilidade humana, desenvolverá elementos latentes das artes que estão aguardando serem devidamente observados; será a sua transformação ao apontar rumos novos que têm sua origem nos antigos conceitos. O diálogo com a tradição e a contemporaneidade leva à qualificação; a Arte Espírita, portanto, só alçará o vôo da borboleta a partir do momento que deixar de estar fechada em si e buscar sua qualificação mediante seu enriquecimento cultural. Tal enriquecimento deve partir de cada artista, dentro de sua própria área de atuação.


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*Glaucio V Cardoso – Estudioso do Espiritismo desde 1989 Professor de Literatura graduado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Mestrando em Literatura Brasileira pela UERJ Autor de Em defesa de um Teatro Espírita, trabalho vencedor do 1º Concurso de Monografias Espíritas promovido pelo Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB) em 2001 Diretor da Companhia Leopoldo Machado de Arte Espírita (www.cialemarte.br30.com) Ator Espírita com 20 anos de experiência. Contato: professorcardoso@gmail com

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